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MEMÒRIAS DE UMA MANICURE

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Resumo

Projeto de experimentação performática, literária, dramatúrgica e cênica para  criação de espetáculo teatral, performances urbanas, podcasts e publicação de livro (de contos) no formato e-book. Feito por (e para) mulheres, memórias_de_uma_manicure nasce do desejo de investigar a complexidade de uma história simples. De gentes simples, representadas em cena por duas manicures. Histórias testemunhadas, ouvidas e, por isso mesmo, um tanto inventadas por duas atrizes imersas durante dois anos em pesquisa de campo, na qual, via plataforma digital, conversaram com 80 mulheres do Brasil inteiro.

Essas mulheres, tão díspares em geografias e sotaques, são trabalhadoras autônomas ou microempresárias individuais em salões, espaços próprios ou a domicílio. Seus serviços custam em média 20/h, em uma diária de 10 a 12h de trabalho com 15 minutos de almoço e despesas que incluem fornecimento de material e/ou a partilha de 60% da receita com os patrões. Durante a pandemia, sofreram grandes perdas. Enquanto buscavam sobreviver, conversavam conosco na salinha do whereby.com.

São mulheres com pouca escolaridade e discursos recorrentes de meritocracia e empreendedorismo. Sonham e conquistam seus sonhos à unha. A maioria é mãe solo. Todas vivem nas periferias de suas cidades. Algumas afirmam ser de direita. Com suas particularidades e similaridades, as manicures são para nós um micro retrato da classe trabalhadora brasileira, assim como são retrato da classe trabalhadora europeia para valter hugo mãe as mulheres-a-dias e os imigrantes de “o apocalipse dos trabalhadores” (São Paulo: Biblioteca Azul, 2017).

Nesse microcosmos ou “mundo minúsculo”, as memórias e o artigo indefinido são propositais. O que acontece, acontece recorrentemente com muitas. Não obstante, suas memórias desafiam a importância dada a grandes feitos – brancos e masculinos. Criar filho sozinha sem garantia laboral alguma é façanha para poucos. As mulheres pobres brasileiras o fazem. Mas não sem construir redes de apoio a despeito de vulnerabilidades e precarizações.

PROPOSTA

Atrevemo-nos ao intuito de formar novos públicos para o Teatro e trazer à cena vozes femininas acostumadas a ouvir e não serem ouvidas. E que, talvez por isso, repitam como ritual de moldagem a gel discursos esmaltados, que acabam – a base de certas operações – revelando sofrimentos também recorrentes. São mulheres silenciadas. Por regras ou falta de tempo. São cuidadoras, por ofício, hábito ou necessidade.

Temos a sororidade como dispositivo – e não temática – e abordamos experiências múltiplas da mulheridade a partir de um olhar para as vivências de femininos subalternizados em relações assimétricas de trabalho e vida. Por meio da personagem-tema, a manicure, ousamos investigar possíveis mestiçagens entre o teatro documentário e o melodrama, tendo por fontes depoimentos coletados, a novela mexicana, o brega e o pagode, entre outras.

Temas transversais estarão presentes em cena – escapando, porém a dicotomias habituais – pois também o estiveram nas muitas histórias ouvidas, compondo com questões que tocam diretamente os femininos histórias íntimas e ao mesmo tempo plurais. Racismo, abuso, empreendedorismo, opressão, competição, maternidade compulsória, abandono parental, sexualidade, padrões de beleza, machismo e envelhecimento suturam histórias reais e ensejam outras tantas imaginadas.

Em cena, duas atrizes adentram essas histórias, enquanto materializam no espaço um salão de beleza e, em seus corpos, vidas que se amalgamam nas personagens Jéssica e Danielle, duas manicures – uma em domicílio, a outra, funcionária de um salão da Zona Sul carioca. Duas amigas que, além de trocar serviços para “levantar a autoestima”, servem de apoio mútuo para as dificuldades da vida. Ambas sofrem. Uma por falta de dinheiro, a outra por falta de homem e de dinheiro. Mas não apenas.

Como metodologia, a narrativa em terceira pessoa dá fluidez a projeções e mapeamentos de um microcosmo específico, e possibilita a criação por meio da palavra, de modo a escavar camadas esmaltadas para acessar a beleza das simplicidades minúsculas.