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MEMÒRIAS DE UMA MANICURE

Resumo

Projeto de experimentação performática, literária, dramatúrgica e cênica tecnovivial*, que compreende: pesquisa, produção e criação de espetáculo teatral, performances urbanas, média documentário em vídeo, podcasts e publicação de livro (contos) no formato e-book. Feito por (e para) mulheres, Memórias de uma Manicure nasce da inquietação de se pensar o salão de beleza como um território que tanto reproduz as dinâmicas de opressão ao feminino, quanto possibilita formas coletivas de enfrentamento das mesmas. Tem como foco as articulações em rede fomentadas por mulheres trabalhadoras periféricas brasileiras. Corpos e discursividades polifônicas atravessam este projeto. Investigar teatralidades tecnoviviais e sociabilidades em rede, tecendo elementos e procedimentos da manualidade, artesania, tecnologia e múltiplas linguagens artísticas é o que pretendemos.

 

*Por tecnovivial, Jorge Dubati (crítico, historiador, professor universitário especializado em Teatro e Artes, e diretor do Institute of Performing Arts “Dr. Raúl H. Castagnino ”, da Faculdade de Filosofia e Letras da UBA/ Buenos Aires) reconhece “aquelas ações em solidão ou em encontro desterritorializado, que são realizadas por recursos neotecnológicos (áudio, visual e audiovisual), numa presença telemática que permite a subtração do corpo físico” (DUBATTI, 2020, p. 11).

Apresentação

Como pensar novas teatralidades em um momento especialmente propício para que ambiente digital e presencialidade convirjam e se potencializem, conectando pesquisa e criação, pessoas e saberes distantes, e possibilitando trocas inimagináveis? Não obstante à proximidade alcançada pelo digital, também nos perguntamos: como criar em múltiplas plataformas o acontecimento que fundamenta o fazer teatral contemporâneo, nascido das experiências em convívio, na presencialidade? Dessa maneira, ao tratarmos de sociabilidade e teatralidade, também nos questionamos: em que medida artesania e tecnologia podem tecer produtos originais e encontros potentes e humanos, alimentando construções colaborativas e reinventando processos a partir do uso das ferramentas digitais? Público em tela, será este um exercício de imaginação possível? Como formar público a partir do tecnovivio? Todas essas questões nos atravessam hoje.

Dessa forma, Memórias de uma Manicure é um projeto pensado a partir das novas possibilidades cênicas do tecnovivio e atravessado por múltiplas linguagens artísticas. Construído em rede, a partir do uso de ferramentas e plataformas digitais, parte de uma pesquisa de campo com manicures reais, por meio de entrevistas gravadas, de um lugar de escuta e da apreensão de como a beleza pode ser uma tecnologia propulsora da autonomia feminina e do fortalecimento de laços entre mulheres. No projeto, as manicures são tema, público e material discursivo que alimenta a dramaturgia cênica e textual, performances em espaços públicos e a escrita de contos curtos para o livro Afetos postiços, no qual se narram em primeira pessoa as vivências de duas manicures, Jéssica e Danielle, nossas personagens-tema. Para nós, a polifonia do salão serve de espelho do mundo. E as manicures, como grandes parabólicas, expandem-se para além da montagem teatral tecnovivial em ações multimídia. Buscamos nelas o entrecruzamento de tecnologias várias – humanas, analógicas, digitais e cosméticas – e pensamos a cultura de forma polifônica, acessível e inovadora. Memórias de uma Manicure está em todos os lugares possíveis e imaginados, já que o salão serve de microcosmo espelhador de realidades atravessadas pelas desigualdades de raça, classe e gênero, entrecruzando referências, vivências, similaridades e assimetrias reproduzidas em diversas partes do país.

Memórias de uma Manicure segue o objetivo fundamental do grupo: democratizar o acesso ao pensamento feminista decolonial, tratando-o de modo acessível e sensível, para, a exemplo dos esforços de bell hooks, poder levar o significado do pensamento e da prática feministas a um público (cada vez) maior. Baseando-nos em experiências concretas e, a partir delas, criando ressonâncias ainda mais potentes por meio da arte, desejamos tratar das experiências de vida de mulheres trabalhadoras brasileiras, perpassadas por opressões de gênero, classe e raça, mantendo-nos, não obstante, longe dos jargões difíceis do meio acadêmico e de visões utópicas e homogeneizantes.

Nossas questões permanecem abertas a novas descobertas: como construir resistências e estratégias de sobrevivência alternativas, mais alegres, empoderadas e eficazes? Como potencializar a luta diária de mulheres brasileiras pobres e silenciadas dentro das hierarquias e dinâmicas de sociabilidades do trabalho formal e/ou informal? Como a beleza pode se tornar uma tecnologia capaz de dar suporte a essas lutas?

O projeto ancora-se, dessa forma, em dois eixos principais. Primeiro, a visibilidade temática às manicures e demais profissionais do ramo da beleza e cuidado, tomando-as como sujeito globalizante, representativo do feminino brasileiro periférico, e possibilitando, a partir desse eixo, a ampliação do alcance de público para a discussão de questões interseccionais do feminismo decolonial.  Segundo, a pesquisa artística voltada para o tecnovívio, de modo a conectar artesania e ferramentas digitais para entrecruzar os sentidos da manualidade e do cuidado (em afinidade com os serviços ofertados por essas mulheres) e os impactos que a tecnologia digital pode gerar na própria escrita cênico-dramatúrgica, performática e audiovisual de seus produtos finais.

Ideias para uma Sinopse

Tecido pela sororidade (criação de laços de afeto entre mulheres), tendo como cenário o salão de beleza, Memórias de uma Manicure narra pela verve da comicidade histórias de vida de duas manicures. Temos a polifonia do salão como espelho do mundo, e as manicures como grandes parabólicas que permitem que o mundo externo ressignifique o microcosmo apresentado. Assuntos cotidianos atravessam esses dois femininos, tão plurais que visibilizam muitas vozes. O ofício da manicure, os afetos, a família, aplicativos de celular, o lazer, o sexo, a maternidade, a fofoca dos famosos, o resumo da novela, o horóscopo diário, o casamento e as violências cotidianas, assim como as desigualdades e opressões de gênero, raça e classe, são temáticas abordadas de diversas formas no projeto. É no encaixe com letras de pagodes, bregas, arrochas e louvores que essas personas trazem à tona camadas de uma vida popular, comum a qualquer periferia dos grandes centros brasileiros. Ao mesmo tempo, nomes de esmaltes e objetos de trabalho constroem outras camadas dessas narrativas, para além da esmaltação de unhas e discursos que comumente vemos no salão físico e digital – em posts no Instagram e Facebook.

A pesquisa empreendida para a criação do projeto, construção dramatúrgica e escrita dos contos nasceu da vivência empírica, ainda que atravessada pelo distanciamento social em consequência da pandemia de COVID-19, por meio de uma escuta atenta às sutilezas e demandas dos muitos femininos observados em entrevistas pela plataforma www.whereby.com; sobretudo, de femininos subalternizados nas relações assimétricas de trabalho e vida na periferia de uma metrópole brasileira. A manicure é, dessa forma, tema, objeto de investigação e público-alvo do projeto.

 

Apresentação das personagens

Danielle é a “Rainha da fibra”, nail designer de sucesso. “Baseada em fatos reais”, como gosta de dizer, sonha pouco. É solar. Frequenta o pagode aos sábados, tem três filhos (mas cria apenas um) e é mãe-solo. Tem pulsão por caber: no salão, no uniforme, na cirandinha, na vida. Esmalta discursos, narrando para re-nascer. Carrega dores profundas, como o abandono parental, a maternidade compulsória, a violência obstétrica. Criativa, preguiçosa e conselheira, ela é a melhor amiga de Jéssica, sua companheira de salão.

Já Jéssica é boa no básico, a “Gueixa do alicate”. Quase não sonha. É uma locomotiva. Se para, pensa; se pensa, descarrila. Virginiana, tem método para tudo. Seu comportamento maquínico possui leveza e precisão. É sempre dela a função de chegar primeiro. Na playlist, brega, arrocha e louvor. Carrega no corpo uma pochete, espécie de apêndice de si, na qual cabe o mundo. Casada, sem filhos, tenta superar a traição de seu marido, ou seria ex-marido? Nem ela sabe. Naldo é o seu grande interlocutor. Viciada em novelas, ficcionaliza a vida. Traz a perda de um filho e uma ingenuidade latente, embarca em todas as ideias (ou trambiques) de sua amiga, Danielle.

Ficha técnica

Atuação: Carla Soares e Luciana Mitkiewicz

Dramaturgos de processo: Gabriele Rosa e Igor Nascimento

Dramaturgista: Gabriele Rosa

Cenários e figurinos: Rodrigo Cohen

Realização: Bonecas Quebradas Produções Artísticas

Assessoria de Imprensa: LV Comunicações