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MEMÒRIAS DE UMA MANICURE

Apresentação

Antes reservadas a ocasiões especiais, agora as unhas pintadas e alongadas estão em todos os lugares: do escritório ao canteiro de obras. “Fazer as unhas” é uma maneira de embelezar-se, de brincar com o próprio corpo, mas também de construir uma imagem pessoal e de demonstrar uma aparência cuidada. Essa construção, essa fabricação ou moldagem da imagem corporal e, por extensão, da imagem pessoal, é cercada de trabalho. Um trabalho majoritariamente exercido por mulheres, para mulheres, como nos ensina Juliana Andrade Oliveira em sua tese de doutorado, intitulada Fazendo a vida fazendo unhas: uma análise sociológica do trabalho de manicure. (2014, 285f. USP, FFLCH, São Paulo, 2014)

Ideias para uma Sinopse

 

Num salão da Zona Sul carioca, duas manicures, funcionárias do local, combinam uma troca de serviços antes do expediente. Jéssica, manicure há 17 anos, pessoa de confiança da dona do estabelecimento, é uma locomotiva; tem método para tudo: é prática, econômica e prefere o movimento; se para, pensa; se pensa, se perde. Phyna no básico, domina um alicate como uma gueixa dominaria a cerimônia do chá. É útil, precisa. Já Danielle é a Rainha da fibra – “coloca como ninguém”. Manicure há 16 anos, entende a profissão como uma forma materializar a beleza, e também o sucesso. E, quem sabe, a fama.  A cirandinha é o seu lugar naquele espaço. Aprendeu a caber ali e fez dela seu meio de transporte, inclusive para outros mundos. Devaneia. E, apesar das cicatrizes da vida, esmalta o seu discurso para garantir o sorriso do dia a dia.

Sem chegarem a um consenso sobre quem tem ou não razão sobre a hora combinada para a troca de serviços, o horário vago de ambas permite que façam a unha uma da outra. E, assim, entre cutucadas, aparam arestas e experimentam novas cores, texturas e brilhos, expandindo suas ferramentas cotidianas de trabalho, e também de vida. Tudo fala naquele salão; tudo se move e transborda por meio de suas narrativas: esmalte, lixa de unha, cirandinha, espátula, alicate, resina, fibra de vidro, acetona, algodão, toalha suja, etc. E, por meio dessa polifonia, a beleza que mascara, modela, higieniza, impõe e legitima padrões sociais enraizados, cede espaço para o que está escondido e silenciado.

É entre um nome de esmalte e outro, uma frase de autoajuda, uma receita mágica para perder peso, uma fofoca sobre o pagodeiro do momento e um comentário sobre o último “babado” do salão, que temas como traição, violência de gênero, preconceitos de classe, homofobia, machismo, transtornos psicológicos, maternidade compulsória, sexualidade e prazer, emergem em lascas. Cutículas sangram, transpassadas pelo capítulo da novela, pela conversa de bar na noite anterior, pelas histórias de vida das clientes, pelo arrocha que toca na rádio. Mas Jéssica e Danielle se refabulam quando, desnudas de seus dramas pessoais, encontram no abraço a sororidade. Aí, a peça muda, o jogo vira.

Justificativa

 

A partir do entendimento de que o salão de beleza tanto reproduz as dinâmicas de opressão ao feminino, quanto possibilita formas coletivas de enfrentamento das mesmas, desejamos tratar neste projeto, especificamente, da ideia de sororidade. Ou seja, da construção de laços de afeto entre mulheres, buscando pensar como o encontro e o reconhecimento mútuo podem fortalecer a luta dessas trabalhadoras brasileiras.

Muitas histórias nos inspiram: histórias de empoderamento feminino e de solidariedade entre mulheres que compartilham suas experiências, buscando ajudar-se mutuamente na superação de seus problemas por meio da construção de espaços de convivência e de outras narrativas possíveis. Como construir resistências? Como construir estratégias de sobrevivência alternativas mais alegres, empoderadas e eficazes?

Nos interessa a biografia da luta do pequeno, do invisibilizado, do frágil e do vulnerável. Das mulheres brasileiras pobres, silenciadas dentro das hierarquias e dinâmicas de sociabilidades do trabalho formal e/ou informal. De guerreiras cotidianas: mães, esposas, filhas, sobrinhas, netas, vizinhas, amigas, primas, cunhadas. E de seus laços tão preciosos no combate às imensas dificuldades diárias.

Quando se fala de profissionais da beleza, deve-se ter em mente que a manicure é a mais pobre dentre elas. O perfil da manicure no Brasil ainda é o da mulher com baixo grau de instrução, dependente economicamente do marido, em sua maioria, e consequentemente em relações de subordinação na vida doméstica, às vezes com violência. “Fortalecer a profissão de manicure é também oferecer autonomia a essas mulheres”, afirma Fernanda Franco, presidente do Sindimani (Sindicado voltado exclusivamente para manicuras e manicuros, pedicuras e pedicuros).

Fernanda menciona também, em depoimento para a tese de Juliana Andrade Oliveira, a falta de responsabilidade social de empresas que fabricam produtos para a manicure, e reclama da falta de atenção ao público que compra seus produtos. “A empresa devia ao menos fazer sorteios de uma casa, de um carro, de vez em quando para as manicures, que a sustentaram por tantos anos” (Oliveira, 2014, p. 23). Mais do que condições de trabalho e formação, o que aparece na fala de Fernanda é a demanda por um lugar social, mesmo que seja o de consumidoras de cosméticos.

Pensamos que a beleza pode ser suporte de lutas e enfrentamentos de códigos pré-estabelecidos e legitimados por uma sociedade patriarcal, heteronormativa, machista e delimitadora das liberdades femininas. No entanto, temos que estar atentas para expressar novas formas de diálogo e reconhecimento. A beleza que afeta e que transforma, que liberta e valoriza a singularidade de cada mulher, é a que nos interessa. Se um esmalte te define, qual cor você usa quando ninguém está olhando?

Ficha técnica

Atuação: Carla Soares e Luciana Mitkiewicz

Dramaturgo de processo: Igor Nascimento

Dramaturgista: Gabriele Rosa

Cenários e figurinos: Rodrigo Cohen

Produção executiva e formação de parcerias: Gisele Perim

Realização: Bonecas Quebradas Produções Artísticas

Marketing cultural: BFV Cultura e Esporte

© 2017 - Bonecas Quebradas Teatro.

Web designer: Raissa Araújo

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